domingo, 19 de março de 2017

Por que a rotina é tão importante na Educação Infantil?

Em 2014, fiz um estágio em um jardim de infância Montessori e, durante aqueles meses, pude entender como a rotina é essencial tanto para o aprendizado quanto para o desenvolvimento da autonomia das crianças. Todos os dias, ao chegar na escola, elas guardavam suas mochilas (que eram instruídas a carregar por conta própria, sem auxílio dos pais ou babás) e iam para a Sala Grande. Às oito da manhã, uma das professoras chamava a atenção da criançada com uma música; então, após dois ou três minutos de danças e cantorias, era hora de sentar em círculo e começar a primeira atividade daquela manhã.
As crianças montavam o calendário (um enorme cartaz de EVA em formato de trenzinho com espaço para o dia, mês, ano e dia da semana) e conferiam como estava o clima lá fora. Isso enquanto revisavam os meses do ano e os dias da semana através de cantigas. Enfim, era hora de conversar sobre o tópico da semana, que podia ser alimentação saudável, um festival que estivesse acontecendo na cidade ou mesmo algo sugerido pelos alunos, como aviões. Nesse momento, eles podiam levantar a mão para falar, contar suas histórias e fazer perguntas, o que gerava uma interação muito rica entre crianças de 2 a 7 anos. Finalmente, todos eram dispensados para ir, junto aos seus professores, realizar as atividades pertinentes a cada classe.
Essa rotina pode não ser a mesma realizada na sua escola e nem as rotinas escolares na Educação Infantil deveriam ser todas iguais. Se as crianças rezam, cantam, conversam ou escutam uma história deve ser definido por cada equipe pedagógica. O importante é que haja uma rotina, uma ordem a ser seguida.

Por que a rotina é importante?

A rotina proporciona uma sensação de segurança. Mesmo em casa, a criança exposta a uma rotina fica mais tranquila porque sabe o que acontecerá em seguida. Na escola, um ambiente em que ela naturalmente se sente menos protegida, que costuma ser o primeiro local de socialização fora da família, isso é ainda mais urgente.
Quando sua turma entende que, após a hora da história, todos irão cochilar e que, depois do cochilo, chega o momento de usar os lápis de cor, a ansiedade diminui. Ela se sente no controle da situação. Cultive essa noção de segurança repetindo comportamentos e expressões sempre nos mesmos momentos ? como sempre começar o dia dizendo Bom dia, amiguinho, como vai? ou ir ao banheiro após falar Hora de lavar as mãos com bastante sabão, fazendo o gesto de esfregar as mãos uma na outra.
Como consequência, a rotina ajuda no desenvolvimento da autonomia das crianças na Educação Infantil. Afinal, elas passam a conhecer os espaços, trajetos e atividades realizadas, sentindo-se mais confortáveis em agir com independência: guardando brinquedos ou materiais na prateleira, porque eles sempre estão lá, ou buscando a lancheira após entregar o desenho para a professora, já que elas sempre vão para o refeitório após a aula de artes.
Conforme a classe for se familiarizando com essa organização, o professor deve dar mais espaço para a autonomia, deixando, por exemplo, que as próprias crianças organizem uma fila ou escovem os dentes sem ajuda.

Todos os momentos devem ser programados?

De certa forma, sim. Isso não significa, porém, que os professores e funcionários precisem controlar tudo o que as crianças fazem durante o período escolar, mas sim que devem ter locais e atividades planejados para cada momento.
Pense no seguinte: em uma turma de Educação Infantil com 20 crianças, nem todas sentirão sono na mesma hora. Caso uma ou duas se recusem a dormir, o professor não pode ser pego de surpresa, o ideal é ter uma área com livros e gibis, brinquedos ou outros materiais que elas possam utilizar até que o resto da turma acorde. Você não precisa elaborar uma atividade orientada, apenas providenciar a supervisão adequada tanto dos que estão tirando uma soneca quanto dos que estão brincando.
Uma boa programação deve incluir um momento de chegada, com boas vindas às crianças (como a construção do calendário que vimos acima), atividades dirigidas (aquelas que têm maior orientação do professor, com objetivos de aprendizado definidos previamente), atividades livres (mas sempre em um espaço delimitado e com supervisão) e momentos de cuidado pessoal (fazer o lanche, lavar as mãos e escovar os dentes, colocar os sapatos antes de ir para casa, etc.) e encerramento.
É importante que a turma entenda que não precisa chorar para sair do playground, porque vai voltar no dia seguinte, que não precisa ter medo ao ser deixado na escola, porque os pais sempre a buscam ao fim da rotina, e assim por diante.

Será que a minha rotina é adequada? 

A rotina da Educação Infantil será estabelecida pela escola a partir das necessidades das crianças:
  • As necessidades biológicas: o descanso, a alimentação e a higiene, a faixa etária;
  • As necessidades psicológicas: o ritmo e o tempo de aprendizado de cada criança nas diversas tarefas realizadas;
  • As necessidades sociais: a cultura e estilo de vida daquela comunidade ou daquela escola.
Lembre-se de que o foco da organização devem ser as crianças. Não faz sentido, por exemplo, jantar às 15h para liberar a equipe da cozinha, se os pais só buscarão os filhos às 17h ou 18h.
Os tempos entre uma atividade e outra também devem ser observados. O ideal é que haja poucos momentos de transição, em que os pequenos não têm nada para fazer, assim como no caso da soneca, isso se resolve com a criação de espaços lúdicos em que eles possam brincar enquanto não são atendidos. Um rodízio de turmas (para que a fila na porta do refeitório não seja quilométrica ou um pátio pequeno fique lotado além da capacidade) também pode facilitar esse trabalho.
Acima de tudo, reparar no que as crianças já conseguem realizar sozinhas vai ajudar muito na definição da rotina. Em que elas realmente precisam de ajuda? Uma classe de 2 anos exige mais auxílio e, logo, muito mais tempo do que uma outra, de 5 anos. É natural que o professor vá assumindo gradualmente o papel de observador e facilitador conforme as crianças crescem e já não requerem tanta intervenção.

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